Por que eu não gosto de calças jeans?

      Isso mesmo, eu vou escrever um texto apenas para explicar o porquê de eu não gostar de usar calças jeans. Minhas razões giram em torno de um simples, mas importantíssimo motivo: calças jeans são desconfortáveis. 
      Quando invento de experimentar uma, me sinto presa em algum universo paralelo qualquer onde respirar é luxo e não um sinal vital e bom humor, presumo, só pode ser contra a lei, sob pena de multas absurdas ou mesmo prisão preventiva, porque sinceramente eu fico me sentindo desconfortável ao último, como se subitamente eu deixasse de pertencer à raça humana e passasse a ser uma coisa qualquer embalada a vácuo, pronta para ser despachada para outra galáxia.
      Às vezes eu pego aquela única calça que restou no guarda-roupa e tento rever meus conceitos e gostar dela - ou odiá-la menos - mas o momento não dura. Quer dizer, você gostaria de alguém que não lhe dá segurança, que te prende, que não combina com você em nada e ainda por cima tudo que faz é lhe causar dor de cabeça? Se você não atingiu o nível máximo de autodestruição, tenho certeza que detestaria. É por isso, então, que eu não gosto das malditas calças jeans. 
      Alias, se você parar para pensar, essas infelizes dessas calças são responsáveis por grandes tragédias - ainda maiores que o roubo da liberdade de movimento. Na minha humilde opinião, calças jeans são as principais causas de baixa auto-estima e consequentes depressões que podem culminar em suicídio. Ou seja, você provavelmente corre mais perigo do que imagina.

Estágios

Por quanto tempo será que as pessoas que cometem um erro grave num relacionamento (e estraçalham a confiança que um tinha no outro, transformando tudo em migalhas e jogando aos corvos) sentem culpa? Digo, se você é responsável por destruir algo que construiu com outra pessoa simplesmente porque você foi imaturo, idiota ou inconsequente, você provavelmente vai passar por alguns estágios e chegar na fase da culpa… Pelo menos é o mínimo que eu espero que alguém tão falso sofra. E, nesse caso, que fases antecedem a culpa e quanto tempo essa última duraria? Vou especular:

Talvez seja algo como: 1: negação - o pior dos estágios, o mais ridículo, o que faz a pessoa ainda mais indigna de compreensão; essa fase definitivamente não deveria existir, mas vai ser considerada porque, infelizmente, em alguns casos de desvio de caráter forte, ela acontece. Ok, então na negação a pessoa tentaria, hum, alegar que nada aconteceu ou que a culpa não foi dela. Se você começou nesse estágio, bem, continue se afundando, não é como se você ainda tivesse credibilidade para perder mesmo. Depois, espera-se, surge a fase 2: arrependimento - quando uma sanidade temporária surge e é acompanhada de fichas caindo, dezenas delas. Parabéns, você finalmente notou o tamanho da sua estupidez. Então, estágio 3: desespero - eu diria que é a etapa em que a pessoa tenta recuperar um resquício de dignidade e, no desespero, converte o arrependimento em ações, pedidos de desculpa, eventuais flores ou bombons, enfim, aquelas cartas ou mensagens de texto cheias de clichês de mártir. Sim, porque depois de destruir a confiança que alguém tinha em você, pedir desculpas deve resolver tudo, mas ok. Se você não foi perdoado, chegou ao último estágio 4: culpa - eis a questão. Você pegou uma coisa linda, pisou em cima, ateou fogo e ainda misturou as cinzas na caixinha de areia do seu gato. Você é um idiota e agora está mais ciente disso do que nunca. A questão é: até quando? Quanto tempo leva para a culpa se esvair? Não imagino uma resposta pra isso: depende de cada pessoa. Me chamem de pessimista, mas eu aposto que a maioria sequer aprende a não fazer isso de novo e continua aí, matando pedacinhos de quem deveria amar.

      Uma das coisas mais interessantes que há para se fazer nessa vida é observar os sentimentos bizarros que as pessoas ousam chamar de amor. Uma enorme fatia das pessoas que se julgam apaixonadas são apenas idiotas - e não no sentido bonitinho da coisa. Tudo bem, há pessoas que realmente acreditam que amam profundamente e que o objeto desse amor é tudo o que há de mais importante na vida, bla bla bla. Vamos dar um pequeno desconto para essa gente, afinal uma boa intenção ainda é melhor que uma ilusão proposital.

      Ter uma boa intenção é legal, sim, mas de nada adianta tê-la e deixá-la morrer de solidão. Intenções precisam acompanhar ações que, é claro, sejam condizentes a elas. Em outras palavras, de nada adianta clamar amor aos quatro ventos quando você nem ao menos sabe o que isso significa e a responsabilidade que isso acarreta.

      Em suma, se você acha que amar é seguir um roteiro ou recitar clichês, você é o idiota mencionado acima, aquele que diz sentir mil coisas, demonstra uma e se julga digno de receber o tal do amor como prêmio. Você pode até ser uma ótima pessoa e ter dezenas de sentimentos maravilhosos, mas isso definitivamente não é garantia de que um deles é amor; então, por favor, opte pelo silêncio: ele ilude menos e te faz parecer menos tolo.

Débora T.

Tem coisas que me matam por dentro, um pouquinho a cada dia. Sem exagero ou drama, é exatamente isso: uma pequena parte de mim - pequena mesmo, tão ínfima que não pode ser medida sozinha - morre com o passar das horas. Ela amanhece tão viva quanto o sorriso de uma noiva apaixonada no dia do seu casamento e apodrece gradualmente como um corpo se decompõe embaixo da terra.

Apesar de constante, esse processo é imperceptível diariamente, mas notável através de análises posteriores com dados relativos à razoáveis períodos de tempo. Até então, não sentimos nada que não aquele conhecido aperto no coração que sempre surge quando assistimos nossas expectativas se trasformarem em cacos, ou então aquela angústia de perceber que não importa o tamanho do nosso esforço, nunca somos bons o suficiente.

O mundo nunca está satisfeito e, mais que isso, sempre faz questão de deixar claro a imensidão de seu desprezo; faz questão de nos matar em segredo.

débora t.

Não entendo como algumas pessoas parecem acreditar em tal coisa como a reversão. Não existe a mais ínfima possibilidade de algo voltar a ser exatamente o que era antes, uma vez que um erro foi cometido. Não existe, mas a insistência que alguns parecem ter para que isso aconteça beira a ignorância.

Uma coisa é você desejar uma segunda chance - e merecê-la - e outra bem diferente é você agir como se alguns fatos pudessem ser apagados e os sorrisos pudessem voltar a ser tão autênticos como costumavam. Não. Não é assim que funciona e o fato de você não entender isso é extremamente ofensivo.

Se o arrependimento é sincero, a compreensão de que a solução não será imediata deve ser consequência. Não há nada de errado em pedir perdão e, sobretudo, em demonstrar que o pedido é sincero, mas revoltar-se com a espera e recusar-se a entender que erros não são passíveis de reversão e nem a confiança de restauração repentina é completamente inaceitável.

Você não pode cometer um erro e agir como se a outra pessoa fosse a culpada por não esquecê-lo. Simplesmente não pode.

débora t.

Nada está bem quando está bem.

“Está tudo bem”. Quer coisa mais difícil que encontrar uma ocorrência integralmente verdadeira dessa frase? Nunca está tudo bem. Não adianta, mesmo que todas as variáveis utópicas que ousamos listar mentalmente por milagre viessem a se tornar reais, ainda assim não estaria tudo bem. Não, porque uma voz continuaria a sussurrar, sutilmente, palavra por palavra em nosso pensamento: “mas, e se…?”

Parece inevitável, como se nosso organismo não dependesse apenas de ar, mas também de autoboicote. Não bastando a infelicidade que descende desse ato, você ainda se sente patético por perceber tal sabotagem e por ser incapaz de lutar contra ela. Claro, para agravar ainda mais a angústia, você superestima os pensamentos negativos e simplesmente deixa de viver o presente que - na sua mais pura inocência - desencadeou o fim do mundo apenas por ousar te oferecer um pouquinho de felicidade.

débora t.

Shampoo e pessoas 2 em 1: por quê?

     Shampoo 2 em 1 promete lavar e condicionar o cabelo, certo? O maldito shampoo 2 em 1 pretende ser um shampoo E um condicionador no mesmo produto. Parece lindo, mas é uma porcaria sem tamanho: eleva as suas expectativas com promessas de um cabelo limpo e hidratado, de uma ação de shampoo e condicionador no mesmo produto, tudo dentro daquela embalagem estúpida que aparenta uma praticidade tremenda. O problema é que a única coisa que o infeliz do produto faz é jus ao seu apelido, 2 em 1. Não porque de fato realiza duas funções, mas porque é duas caras, do tipo que diz uma coisa e faz outra. Não limpa direito, muito menos trata. Grandessíssima porcaria.
     Tem gente que é tal qual um shampoo 2 em 1: diz uma coisa, faz outra. Promete amar e respeitar, mas vira as costas e magicamente esquece tudo o que convém. Gente que jura fidelidade e carinho, mas nunca acha necessário agir de maneira condizente. Gente 2 em 1, que pretende unir amizade e amor num só relacionamento, mas que assim como o infeliz do shampoo, tudo o que aparenta é uma propaganda enganosa, e tudo o que realmente faz é mentir e criar disfarces para acobertar a trama.
     O problema é que, quando você vai ao mercado, você enxerga claramente escrito na embalagem “2 em 1” e pode simplesmente optar por não comprar o produto. E quanto à essa gente que se esmera em clamar amor eterno, fingir respeito à quem - por espontânea e ingênua vontade - lhe devota sentimento e tempo, mas que só faz agir de maneira contrária? A embalagem não mede esforços para enaltecer o conteúdo e aparentar ser o que não é; não há em lugar algum um alerta claro que pudesse nos livrar da decepção, como um sinal de neon fluorescente escrito em letras garrafais: pessoa 2 em 1.

débora t.

Tenho uma empatia seletiva. Ela só existe em doses absurdas, sempre me sufocando pelo excesso. Como se já não bastasse sofrer com a minha própria dor, sofro quase que igualmente com a dor alheia. Não sendo suficientemente desagradável, a tal da seletividade ainda configura uma contradição: derramo lágrimas ao me deparar com a tristeza de um e reajo com uma frieza extrema ao topar com a dor de outro. Sem regra, sem aviso ou explicação, apenas isso: uma empatia seletiva e contraditória, mas inegavelmente intensa e indesejada.

Às vezes você não irá fazer nada errado, mas a dor lhe será imposta de qualquer maneira. Não há escolha, não importa o quão cuidadoso você possa ser. Mesmo que você dê o melhor de si e tente não esperar nada em troca, você estará esperando. Mesmo que você ignore as promessas e desconfie de tudo o que ouve, você estará acreditando. E se você acreditar deliberadamente, será apenas mais um alvo fácil da ilusão. Não há saída: desconfiar desgasta, acreditar ilude e ambos decepcionam.

débora t.

O fim que precede o início

Ela se sentia meio deslocada. Era desajeitada demais, desiludida demais. Não era ingênua o suficiente para acreditar num otimismo incondicional, nem madura o suficiente para conter todas as lágrimas que a vida lhe provocava.
Ela achava que conhecia o tal do amor. Ela sentia muito, mas vivia pouco. Convivia com sentimentos falsamente recíprocos e com a desvalorização da fidelidade.
Ela apreciava demais a confiança, dependia dela; não sabia viver sem tê-la como alicerce. Então, sempre preferiu acreditar em todos que demonstravam merecimento. A decepção tardou, é verdade, mas chegou e não hesitou em trazer consigo um mundo de ruínas. Chegou reiventando o conceito de dor e, principalmente, estabelecendo um fim.
Não acabou com a vida, sequer mobilizou uma desistência; apenas impôs uma contradição: um fim definitivo passível de reversão. Um final de toda e qualquer vontade.
Ela, que sentia tanto, já não sentia nada. Ela que sempre se sentiu perdida, viu-se finalmente incluída em um mundo único, seu próprio universo repleto de puro desânimo.

Uma pessoa estendeu a mão. Uma única pessoa, durante todo o seu caminho. Ela, num momento de desespero e rebeldia contra sua própria tristeza, viu-se estendendo o próprio braço. Continuava desajeitada, desiludida e incomodada, mas agora vivia seus maiores receios, não mais simplesmente os temia. Continuava incrédula e resistente, porém não mais inatingível. Permitia-se a dor da vulnerabilidade, assim como sua potencial decepção, ou felicidade.
Deitados, entrelaçaram suas pernas. Ela era grande demais, porém naquele momento sentiu-se incrivelmente pequena e indefesa, mas protegida. Suas pernas enroscadas estavam suspensas, seus braços permaneciam encolhidos e apertados contra o peito dele.
Ela olhava para o teto e ele tentava olhar pra ela. Enquanto ele divagava sobre a dependência humana de carinho, ela sorria e distraía-se sentindo cada batida do coração dele. Estava apavorada, é verdade, mas sentia-se surpreendentemente feliz.
Ela havia percorrido um caminho realmente difícil e mal acreditava que toda a dor havia resultado naquele singelo momento. Ela só tinha uma certeza: não o trocaria por nada no mundo, absolutamente nada.

débora t.